Vereador da cidade do Rio de Janeiro

Artigo: Entrevista: eleições 2010

Rubens Andrade fala sobre o processo eleitoral.

Como avalia o processo eleitoral de 2010?

Rubens Andrade: O Brasil está maduro o suficiente no processo eleitoral . Completamos 25 anos de estado democrático de direito, 21 anos que retomamos o direito de escolher o Presidente da República, 22 anos de Constituição, 25 anos que escolhemos os prefeitos das capitais e de ex- áreas de segurança nacional e 28 anos que voltamos a escolher os governadores. Penso que já é hora de termos o entendimento em relação ao direito e dever do cidadão em escolher, fiscalizar e acompanhar.
O que marcou esta eleição?

Rubens Andrade:  Continuamos com presenças marcantes do poder econômico, do assistencialismo, isto é, onde o poder público não chega,  os centros sociais estão presentes. Temos claramente o poder  da força, através da milícia ou do narcotráfico, presença marcante do poder do voto religioso, do poder de quem está na mídia, usando os veículos de comunicação diariamente para se promover  e tendo votações impressionantes.  Várias vertentes, em que há  ausência da discussão política.
Temos uma população que cobra presença do parlamentar, quer que o parlamentar seja uma pessoa honesta, íntegra, como qualquer cidadão deve ser na sua vida, seja não jogando lixo nas ruas, participando da reunião do seu condomínio, da associação de seu bairro, do seu sindicato, do grupo em que convive, mas de outro lado, as urnas deixam clara a ausência enorme de eleitores e um número expressivo de votos em branco ou nulo. Aí é uma questão complicada, os eleitores se anulando, seja dos setores populares ou classe média.  Quando as pessoas se anulam alguém escolhe por elas. A representação política se dá através da democracia e o processo de escolha com este viés, fica cada vez mais preocupante.
Os eleitores acompanham o trabalho do parlamentar que elegem?

Rubens Andrade: Por experiência própria, eu conto nos dedos quantas pessoas me abordaram nas ruas, feiras,estações de trens e metrô, reuniões, debates, conferências,  perguntando sobre  o papel de um parlamentar. As pessoas não têm esta compreensão, acham que o político é tudo, menos um parlamentar.  Ser íntegro, honesto, trabalhador ,não jogar lixo nas ruas, parar quando o sinal está vermelho,  estes são valores que devem estar presentes na vida de todos os seres humanos, independente de seus cargos ou funções na sociedade.  Independente do processo eleitoral, temos que retornar aos nossos valores. Se a representação política, segundo constatação dos próprios eleitores, é ruim, é bom lembrar que os eleitos não entraram  pela janela, entraram sim,  com o voto dado pela população, assim como não vieram de Marte. É importante ressaltar este debate junto às pessoas, há uma despolitização que não pode continuar, as pessoas têm que se informar, ler jornais, identificar tudo o que chega pela internet,até mesmo porque , nem tudo que está na rede é verdadeiro.
As pessoas não participam mais de movimentos sociais?

Rubens Andrade: Uma parcela significativa da sociedade está individualista. Estas pessoas acham que os problemas de dentro de casa se sobrepõem aos problemas da coletividade. Precisamos compreender que vivemos em uma sociedade,residindo em um loteamento, conjunto habitacional, bairro,  em uma cidade.  Esta compreensão é difícil. Uma pesquisa de uma universidade pública aqui do Rio de Janeiro revelou que 94% dos eleitores não lembravam em quem votaram em 2006, se não  lembram, como vão cobrar? De quem vão cobrar? Este é um desafio. Temos que discutir política, falar sobre política e enfrentar este falso paradigma de que político não serve para nada,  é tudo igual.
Como  vê as pessoas que dizem que não gostam de política?

Rubens Andrade: Não gostam, mas escolhem. Eu vi o filme de campanha de um candidato em que ele se escondia e falava: “te peguei abestado, sou eu”. O que é isso? Que falta de respeito com os eleitores.  Não entendo os votos que ele obteve como voto de protesto, acho o voto do atraso. Um milhão e trezentos mil eleitores não entenderam que política é coisa séria.  As pessoas têm que debater e cobrar de suas representações ,mas não de forma demagógica, atrasada e retrógrada. Não tem saída, porque temos que ter representantes na câmara, nas assembléias, no congresso, no senado, as cadeiras não ficarão vazias, ou parcela do eleitorado que se anula, se abstém ou que vota de forma irresponsável, entende isso, ou vamos pagar um preço muito alto em nossa sociedade.
Nesta eleição muito se falou em redes sociais, vc acha que estas redes podem ajudar a divulgar o trabalho político?
Rubens Andrade: Sim, mas desde que se divulgue a realidade. Faz-se uma pesquisa e aí define-se  o que as pessoas desejam ouvir do candidato, ele vai e fala, fala o que as pessoas querem ouvir, isso é um desafio. Superar isso é importante também. Defendermos valores que visem o bem comum.  O político tem que ter coragem de falar o que pensa e não o que as pesquisas apontam.

Como fica o trabalho parlamentar?

Rubens Andrade: O trabalho de representação continua. Temos que votar projetos de interesse da cidade como o pacote olímpico. Temos que estar atentos e contribuirmos para uma boa copa do mundo, que preparemos a cidade de forma estruturada e que fique como legado dos jogos olímpicos, a melhoria do transporte urbano e coletivo, a saúde, a educação, o meio ambiente, a qualidade de vida em nossa cidade. Temos que aproveitar estes dois grandes eventos em nossa cidade para melhorar a qualidade de vida da coletividade, eu penso que é uma saída para melhorar inclusive a representação política.

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